FILTRO D´AMÔR
(PARTE I)
(PARTE I)
AS 5 PRIMEIRAS FOLHAS
DO ORIGINAL





Comédia Musicada
1 ACTO e 2 QUADROS
Original de
FRADIQUE
SETÚBAL, 1941
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PERSONAGENS
CARLOS SALDANHA − Tenor (Galã).
LÚCIA DE LIMA − Rival de Isabel.
BAZALICÃO − Boticário.
PINOCCHIO, O PAPAGAIO − Ave canora e falante. (Personagem de bastidor)
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TODOS OS PERSONAGENS DESTA PEÇA SÃO PURAMENTE IMAGINÁRIOS, E QUALQUER SEMELHANÇA QUE PORVENTURA POSSAM TER COM ENTES REAIS DEVE SER TOMADA COMO COINCIDÊNCIA FORTUITA.
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ACTO ÚNICO
1º Quadro
Isabel, Carlos, Lúcia, depois Manivela.
Isabel (depois de a grafonola se ter calado) − Como achou este número, Senhor Carlos ?
Carlos - Gostei bastante. E a Lúcia ?
Lúcia (desdenhosa) - Não gostei, nem desgostei... banal...
Carlos (conciliador) — Não me pareceu de todo mal...
Lúcia – Já se sabe que você tem o gosto estragado.
Carlos (aproximando-se) - Não em tudo, Lúcia, acredite-me...
(Isabel desvia a vista, magoada pelo interesse que Carlos parece ter por Lúcia).
Lúcia - Ora... ora...
Manivela (entrando pela porta da rua, às arrecuas, e falando para fora) - Então não se esqueça do meu pedido, amigo Basalicão… obrigado (reparando na freguesia e para Isabel) - Porque não me chamou, menina Isabel ? Eu tinha atendido.
(Para os fregueses) - Então já escolheram ? E que mais há-de ser?
Lúcia - Afinal não nos agradou nenhum dos discos. Decididamente tudo o que há nesta casa é muito banal, muito fora de moda...
Manivela - Ó minha rica Senhora, desde que V.ª Ex.ª. aqui entrou, nem tudo está fora de moda....
Carlos - Ora a Lúcia tem coisas… também não sei o que lhe agrada. Corremos já três ou quatro estabelecimentos e não se resolve a comprar.
Lúcia - Se o Carlos. está aborrecido... eu não lhe pedi para me acompanhar...
Carlos – Não, isso sim… Bem sabe que tenho sempre muito prazer em lhe fazer companhia.
Manivela – Mas minha Senhora, tenho ainda aqui uma canção…
Lúcia (interrompendo) – Não se incomode. De resto (vendo as horas) já é tarde… (para Carlos) Eu vou para casa, Carlos.
Carlos – Se me permite, vou acompanhá-la.
(Saem ambos. Lúcia sem dizer adeus; Carlos baixa a cabeça a Isabel).
Manivela e Isabel
Isabel – Ó Artur, lá começas tu. Deixa lá… então, ele gosta dela…
Manivela – Deixa lá, não! Que não gosto de ver a menina andar triste. Ou não fosse eu empregado de seu pai já há perto de 15 anos, conhecendo-a a si desde pequenina. (pausa) Ele gosta dela? Ele é um palerma (gesto contrariado de Isabel). Um palerma, sim senhora. (Isabel amua) – (Aparte) Ó Diabo, lá amuou. (Alto) Um palerma é modo de dizer… ele é muito bom rapaz… e tem uma linda voz.
Isabel (contente) – Pois não tem? E é tão simpático, tão insinuante… (caindo em si) Ora, lá estou eu a divagar…
Manivela – Deixe lá que os sonhos às vezes tornam-se realidades.
Isabel (encolhendo os ombros) – Isto para mim nunca passará dum sonho…
(Isabel canta uma canção de amor. Manivela fica embasbacado a ouvir).
(Canção de amor)
Num certo conto de fadas
e de moiras encantadas,
um jovem Príncipe havia.
Quando ouvia essa quimera,
´inda pequenina eu era,
era a ele a quem mais queria.
Tinha todo o meu afecto,
era o meu amor secreto
que eu não contava a ninguém.
Eram sonhos de criança,
não cheguei a ter a esperança
que ele existisse também.
Mas quando um dia te vi,
o meu Príncipe esqueci
e dei-te o meu coração.
Tu nem em mim reparaste
e indiferente passaste,
sem ver a minha paixão.
Quis voltar ao antigo amor,
mas ai!... já não tem sabor
a velha história esquecida!
O sonho de amor de então,
não passava de ilusão…
Só tu p´ra mim és a vida!
Isabel – Lisonjeiro! (retirando-se) Olha, até logo. E agora não vás badalar isto! É segredo entre os dois. (Sai pela D.B.)
(Continua...)












