O Xadrez e a Música
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quarta-feira, abril 04, 2007

FILTRO D´AMÔR
(PARTE II)



CENA III

Manivela, depois Basalicão


Manivela - Eu badalar... sou mais mudo...(Levando a mão à testa) Ora o boticário que ainda me não trouxe a xaropada. (Vai à porta da rua e chama): - Ó seu Basalicão! (pausa) Ó vizinho Basalicão! (Aguarda um momento e vai dando passagem)
Basalicão - Você está impaciente, homem. Isto demorou porque teve que ser filtrado várias vezes.
Manivela - E dará resultado ?
Basalicão - Garantido!
Manivela - (tirando um pequeno frasco duma gavêta do balcão) Ainda aqui tenho isto (Lendo o rótulo) – GARGANTOL – 1º - Para tomar às colheres de pau. (Rindo) Ah Ah Ah!!
Basalicão – O rótulo é para disfarçar (entrega-lhe o 2º frasco, que traz, e recebe o 1º). Agora leia.
Manivela – (lendo o rótulo do 2º frasco)- GARGANTOL - 2º - Ajeite quando usar. Ah, Ah!, ajeite é muito boa, seu Basalicão.
Basalicão – (Olhando o conteúdo do 1º frasco) - Você chegou-lhe uma dose forte, ahn?
Manivela - Se lhe parece. O maldito papagaio estava todo o santo dia: (imitando) Ó Manivela, ó Manivela! (alto) - Pedi à vizinha para o mudar para o saguão; ia-me comendo. ”Eu, tirar da janela o meu Pinocchio?” que o papagaio era muito seu, e desde que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, sempre se têm visto papagaios pendurados nas janelas.
Basalicão – Vá lá responder a uma dessas.
Manivela - Foi então que pedi o seu concurso, amigo Basalicão! Foi remédio santo. Misturei-lhe a droga na paparoca e há 3 dias que o papagaio se não ouve. Está que parece uma rã (imitando) ââh, ââh...
Basalicão - Isto é seguro. Ataca de tal maneira a guela que só ao fim de muitos dias passa a rouqueira.
Manivela - Mas a dona parece que farejou que fui eu, fez barulho. ameaçou ir queixar-se à polícia, e tive que prometer que lhe curava o bicho.
Basalicão - Pois dê-lhe isso (aponta para o 2º frasco) que meia hora depois está bom. E é pena. Não tarda que o maldito recomece a meter-se com a vizinhança É cada grito! (imita) Ó boticário!!!...
Manivela - Tem que ser, senão entra a Polícia (Basalicão vai a sair). E deixe cá ver esse também, homem... ainda pode fazer falta.
Basalicão – (entregando o 1º frasco) - Mas não abuse, ahn! (Sai de cena Basalicão pelo F.E.)
Manivela - Ora vamos lá deitar esta mistela na comida do papagaio, a ver se o maldito recupera a fala (Sai igualmente pelo F.E.- porta da rua).



CENA IV

Júlio, depois Manivela



Júlio (entrando pela D.B. e não vendo ninguém) - Nem o pateta do Manivela, nem a sonsa da minha prima. A loja desamparada. Se agora entrasse o meu tio, havia de ser bonito. (pausa) E eu que preciso de falar ao Manivela (pausa) Ah! lá vem ele.
Manivela - (que volta da rua) - Boa tarde, Senhor Júlio.
Júlio - Onde é que estiveste metido para deixares a casa às moscas?
Manivela- Estive só aqui à porta, a dar este remédio (mostra o frasco) ao papagaio da vizinha - o Pinocchio - que está rouco.
Júlio - Bem. Venho lembrar-te a nossa combinação. Já achaste algum estratagema?
Manivela - Ainda nada, senhor Júlio; é muito difícil...
Júlio - Lembra-te bem do combinado. Bem sabes que a recompensa é boa.
Manivela - Eu bem queria. Mas se não arranjar maneira?!
Júlio - Tens de arranjar e é já para, hoje. (Tira um programa da algibeira) Cá está. (Lendo) Hoje, realiza-se no Teatro Folias Brejeiras um grande Sarau de Gala, etc., etc.. Olha os números: tal, tal; para terminar, o final da Opereta "Joujoux e Balangandans", cantado por D. Lúcia de Lima e pelo Sr. Carlos Saldanha, com coros. (Vai dobrando o programa). Ora isto é que é preciso evitar. Arranja as coisas de maneira que ele lá não possa ir cantar. Eu estou lá hora de começar e vou substituí-lo; e com vantagem.
Manivela (Aparte) - Com vantagem? Não me parece. (Alto) Eu pensei que talvez...
Júlio (Apressado) - Diz, diz...
Manivela - Talvez se se eonseguisse que a Dª. Lúcia não cantasse ele também lá não fosse!
Júlio – Não, isso não. E depois, quem a substituiria?
Manivela - A menina Isabel, por exemplo.
Júlio - A minha prima? Isso sim, é acanhada para aquilo. E mesmo não queria.
Manivela - Isso é que o senhor não sabe...
Júlio – Em vez da outra ? Elas estão a ferro e fogo. Não! A Lúcia tem de cantar, o Carlos é que não.
Manivela (Aparte) - O que tu queres é ir fazer figura ao lado dela. Também estás pelo beiço. (Alto) Isto é o diabo…
Júlio - Qual diabo! Já não é a primeira vez que tu tens ideias salvadoras. Procura. Manda-lhe um telegrama a anunciar a morte do tio rico que ele tem lá para o Norte.
Manivela - O quê? Se ele soubesse que lhe tinha morrido o tio rico, ainda cantava melhor…
Júlio - Não sei, resolve. Deixo o assunto nas tuas mãos. Quando voltar quero ter já o plano completamente urdido. Até logo. Vamos, homem, dá umas voltas à manivela, a ver se isso sai. (Sai pelo F.E.).

(continua)