O Xadrez e a Música
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quarta-feira, agosto 05, 2009

O TEMPO

1 ANO

O autor com 1 ano...

Correm os dias, passam meses, anos,
o Tempo, cruel Tempo, não descansa;
as pétalas quase secas da esperança
murcham e caem ao sopro dos enganos.

E nós ingénuos sonhadores – humanos –
fechamos nossos olhos à mudança;
esquecemos que também a Vida cansa
e perdemos os dias, meses, anos.

De Ontem, que ficou? Uma Saudade!
O Amanhã... quem sabe o que lá mora?
E enquanto pensas, o minuto foge...

Não pares nem tem pressa, na verdade,
suavemente o teu jardim enflora,
lembra-te que viver é gritar: Hoje!


Rui Nascimento
Agosto 2009


95 ANOS

...e com 95 anos

quinta-feira, junho 18, 2009

Comemorações do 95º Aniversário do Mestre Rui

AMIGAS E AMIGOS

O PAI E EU CONVIDAMO-LOS A PARTILHAR CONNOSCO ESTES MOMENTOS DE ALEGRIA!

NÃO É TODOS OS DIAS QUE SE FAZEM 95 ANOS AINDA COM TODA ESTA SAÚDE E VITALIDADE, APESAR DE ALGUNS "XEQUES AO REI"...

DEPOIS DE O TEMA DO SEU 90º ANIVERSÁRIO TER SIDO O XADREZ, O TEMA ESTE ANO FOI A POESIA, NOMEADAMENTE A POESIA DA SUA JUVENTUDE EM SETÚBAL.

EM BREVE TENCIONO COLOCAR À VOSSA DISPOSIÇÃO NA INTERNET, O 1º VOLUME DE POEMAS.

TAMBÉM NÃO FALTOU UMA "PERNINHA" AO VIOLINO, PARA ANIMAR A FESTA...

AGRADECEMOS A QUEM TEM DEIXADO MENSAGENS DE PARABÉNS NO "JARDIM" OU POR MAIL.
ABRAÇOS E BEIJINHOS MEUS E DO PAI PARA TOD@S VÓS!






Também a revista inglesa "The Problemist" não se esqueceu

do seu colaborador português de há muitas décadas!



sábado, setembro 27, 2008

PARA QUÊ?
(Poema de 1935)

O mais antigo poema no arquivo poético de meu Pai, escrito aos 20 anos.



Para quê importar-se
com o que vai pelo mundo?
Para quê?
A Vida é um abismo maior que o mar profundo,
mas ninguém vê.
No seu limite extremo, a igualdade – a Morte,
desfazendo o egoísmo, a desgraça e a sorte.


Rui Nascimento
Setúbal, 2-3-1935


sábado, junho 14, 2008

94º ANIVERSÁRIO DO MESTRE

No dia 14 de Junho, em que completa 94 anos, meu Pai lê o seu poema "Mostraste as Ligas ao Santo", diz de cór "as Serras de Portugal" e "as Estações da Linha do Norte". Estava um pouco esquecido dos "Imperadores de Roma", pelo que tivemos de "adiar" esses para outras calendas!


Quando era "ainda mais jovem" sabia de cór toda "A Ceia dos Cardeais" e os 256 Concelhos de Portugal em 1940, data em que entrou para os CTT, onde trabalhou durante 3 anos, antes de se tornar bancário.


Apesar de a Poesia ser apenas o seu 3º hobby, sendo o 1º o Problema de Xadrez, o 2º o Violino e o 4º a Matemática, creio ter ele feito ao longo da vida mais de 100 poemas, alguns já publicados neste blogue.


Actualmente recita ainda inúmeros poemas de cór, seus ou de outros Autores, canta velhas cançonetas, tangos, etc... e claro, continua a pegar no seu querido violino!
Vamos então dar início ao recital...

"Mostraste as Ligas ao Santo!"

(ver Post anterior)


As Serras de Portugal - o ensaio... saiu Machico em vez de Monchique...


De novo as Serras... agora, sim!!!


As Estações da antiga Linha do Norte


FINALMENTE, OS PARABÉNS!


Para terminar, os "Cunhados Afinados"!


Muitos Parabéns, Pai e que ainda nos acompanhes assim por muitos anos!

quinta-feira, junho 12, 2008

Mostraste as Ligas ao Santo!




*** MOTE ***

Mostraste as ligas ao Santo
porque querias casar;
e o brejeiro espreitou tanto
que até caiu do altar!

*** GLOSAS ***

O Santinho da capela
tentando, com teu encanto,
puseste as pernas à vela
e vi que, sem mais aquela,
mostraste as ligas ao Santo.

Outrora do Amor rias,
hoje andas a suspirar
com olheiras doentias;
e um milagre já pedias,
porque querias casar.

Mas de inveja concentrada
eis quase estoiro em meu canto,
porque da “vista” almejada
não lobriguei quase nada
e o brejeiro espreitou tanto.

Porém o Santo infeliz
teve castigo exemplar,
o maroto tanto quis,
tanto estendeu o nariz,
que até caiu do altar!

Rui Nascimento
Abril 1957

NESTE OUTRO POST, TAMBÉM PODEM CONHECER UMA MARCHA POPULAR COMPOSTA POR MEU PAI EM 1967



Lá Vai Lisboa - Teresa Salgueiro & Lusitânia Ensemble

sábado, junho 23, 2007

LISBOA EM FESTA...
HÁ 40 ANOS

Amigos:

Tendo-me sido completamente impossível pelo Santo António e apesar de já estarmos no São João, publico hoje esta Obra de meu Pai - uma Marcha concorrente à Grande Marcha de Lisboa de 1967, e que foi preterida por o Autor não ser da “cor” dos dirigentes da época…











LISBOA EM FESTA

Obra concorrente
à Grande Marcha de Lisboa 1967

Pseudónimo “Hilário”


Vem ver a Marcha toda a Cidade
e os bairros passam cantando à porfia.
Grita “presente!”, ó mocidade
e vem cantar e vem bailar, vem p´rà folia!
Enlaça flores,
fala d´Amores,
que nesta Marcha traz Lisboa o coração…
A subir p´rà Lua,
se um balão fluctua,
reza com ternura esta oração:

Ó meu balão voa, voa,
sobe à toa,
e às estrelas multicores,
Luz divina a arder nos Céus,
leva um beijo de Lisboa
e pede p´ra seus amores
a benção da Mãe de Deus!

Ergam os arcos, soltem balões,
e siga a Marcha, que a noite está bela;
olhem no alto: cintilações…
será acaso o meu balão, será uma estrela ?!
E os namorados,
muito abraçados,
ai, trocam juras e suspiros d´emoção…
numa curta prece,
Lisboa adormece,
e ao longe ainda há ecos da canção:

Ó meu balão voa, voa,
sobe à toa,
e às estrelas multicores,
Luz divina a arder nos Céus,
leva um beijo de Lisboa
e pede p´ra seus amores
a benção da Mãe de Deus!

***

Letra: Rui Nascimento

Música:
Melodia: Rui Nascimento;
Harmonização: Maestro Idalino Cabecinha

O número 82 que se vê, a vermelho, na partitura, ao alto à direita, foi atribuído pelo Júri que recebia as obras concorrentes, o que dá ideia do elevado número das mesmas.
Uma alta patente militar, cujo nome não recordo, era o Presidente da C.M.L. e do Júri do Concurso.
Provavelmente, esta Marcha teria tido probabilidades de ter ganho o Concurso das Marchas nesse ano, pois o sobrescrito com a identidade do vencedor só podia ser aberto depois de atribuído o Prémio. Ora quando tudo me foi devolvido, o sobrescrito - com o pseudónimo e a minha identificação - estava aberto!
Torna-se evidente, que foi aberto porque a Marcha despertou algum interesse… mas foi preterida, pois quem abriu o sobrescrito viu que eu não era da cor do regime da época. Invoquei o Regulamento da Marcha de Lisboa, que apenas permitia a abertura do sobrescrito da obra vencedora e alguém me avisou “Tem cuidado, senão ainda te põem a PIDE à perna…” * R.N.

quinta-feira, junho 14, 2007

93 ANOS de RUI NASCIMENTO

A meu Pai, que hoje completa 93 anos, dediquei, aquando do seu 90º Aniversário, estas rimas, já publicadas no meu Jardim, o ano passado. Por falta de tempo e também para quem não leu o ano passado, aqui são republicadas hoje no Quintal.



Neste dia memorável,
perante nobre assembleia,
ocorreu à filha a ideia
de rimar ao pai amável,



que ao Xadrez tem dedicado,
principalmente, a existência;
mas também, com excelência,
noutras Artes é versado.



O Problema de Xadrez,
p´ra ele não tem segredo.
Compõe, sem dúvida ou medo,
mates em dois e em três.


Problemas figurativos,
tecendo belas imagens,
dedicou a personagens
ilustres, mortos ou vivos.



A concursos variados
apresenta seu trabalho
e, sempre sem enxovalho,
fica bem classificado.

Mas se a Musa do Xadrez
foi a que mais o inspirou,
as outras, que cultivou,
não deixou em pequenez.

De Erato, melodiosa,
aprendeu, sem desatino,
a arrancar do violino,
tango ou valsa primorosa...


A mesma Musa formosa,
o inspirou na Poesia:
num repente e com mestria,
verseja com mote e glosa.


Dos livros é grande amigo,
quer versem Arte ou Ciência,
e na arte da eloquência
não passa despercebido.


Grande leitor de jornais,
das Letras grande amador,
chegou a dizer, de cór,
“A Ceia dos Cardeais”!...


Às mais exactas Ciências,
com afinco se aplicou,
e também não desprezou,
dos astros, as refulgências!


De Arquimedes às Ideias,
ou de Einstein às Teorias,
dedicou noites e dias,
desenredando essas teias...



Do Tempo leva vitória,
os cometas observou...
E, de Vénus, contemplou
a apolínea trajectória! (*)



Os amigos dedicados
nunca da memória tira...
por Damião de Odemira,(**)
os traz, sempre, convocados!



Já longo é o seu trajecto,
mas não se dá por vencido...
amanhã, ao sol nascido,
já ensaia outro projecto!


Da Razão, Justiça e Bem
Paladino se tornou,
Esposo amável se mostrou,
Pai muito amigo também;
histórias conta mil e cem
que a todo o que escuta encantam...
Noventa e três “já cá cantam”...
Cá estaremos para os Cem!!! (***)

X C I I I em M M V I I

* * *

(*) - O trânsito de Vénus.
(**) - A Tertúlia "Damião de Odemira", de que foi fundador.
(***) - Pelo menos!




Ao Violino, seu 2º Hobby:
- Señor Comisario (tango)
- Samaritana (fado) - Adiós, Pampa Mía (tango)

sexta-feira, junho 01, 2007

Dia da Criança

Rui Nascimento aos 13 meses (1915)



Mamã, vem cá à janela,
ver uma fita amarela
ali no céu, tão bonita!
Agora é verde, também,
encarnada, azul; ó Mãe,
o que é aquela fita?

Aquilo… a Mamã já conta:
havia uma velha tonta,
uma bruxa bem perigosa.
Co´ as mais belas cores pintou
um grande arco e disfarçou
sua gruta tenebrosa.

Com aparências tão boas,
enganou muitas pessoas
que lá se foram perder.
Das coisas, vê bem, meu filho,
a quem se fia no brilho,
tudo pode acontecer!

Está bem, Mãezinha, eu entendo…
e agora compreendo:
A Titi velha também
pinta as unhas de encarnado
e traz o cabelo pintado
para ver se engana alguém!


Rui C. Nascimento


(Jogos Florais da Primavera, Setúbal – 1941)

Premiada com o 1º Prémio - «Malmequer de Prata»


Sunrise, Sunset

quarta-feira, maio 30, 2007

JOGOS FLORAIS DA PRIMAVERA
SETÚBAL - ABRIL DE 1941

Depois de, durante várias semanas, ter sido aqui publicada a peça de Teatro de meu Pai, "O Filtro d´Amôr", perguntar-se-ão os poucos que tenham tido o tempo e a paciência de a ler, o que sucedeu à dita peça - terá sido representada?

Infelizmente, não chegou a sê-lo. Chegou, sim, a ser lida em voz alta pelo Autor - meu Pai - no Teatro Luísa Todi, perante, entre outros, o Director do Teatro e o Maestro e Pianista Idalino Cabecinha (na família Cabecinha, na altura, existiam cinco irmãos, dos quais 3 eram músicos - Idalino era Compositor, Pianista e Maestro do Orfeão de Estremoz; Idalécio era Violinista, tendo tirado o Curso Superior de Violino e fazia parte de um terceto que tocava num navio que fazia as carreiras de África; Idaleciano era também Violinista e Fotógrafo; o pai destes, José Pinto Cabecinha era Pianista, Compositor e Fotógrafo).

Voltando à peça "Filtro d´Amôr", meu Pai, então, concorreu com ela, na modalidade "Teatro" aos Jogos Florais da Primavera de Setúbal em 1941. Também concorreu nas modalidades de Soneto - com o Soneto "Redenção", Poesia a Mote - "Tanta dôr tanto tormento, Na saüdade que me mata", Poesia Infantil e Quadras Popular e Humorística. Foi o concorrente mais premiado tendo alcançado três 1ºs prémios em Teatro, Poesia a Mote e Poesia Infantil e três Menções Honrosas em Soneto, Quadra Popular e Quadra Humorística.

A seguir podem ver a página (teve de ser "cortada" ao meio) de "O Setubalense" de 21 de Abril de 1941, onde se fez a cobertura muito pormenorizada da Sessão Solene, realizada na noite de 19 de Abril anterior, um Sábado, na sede da Sociedade Musical Capricho Setubalense.

Sublinhei as participações de meu Pai assim como uma ou outra peripécia mais relevante, como "No fim, dansou-se."...


Página 2 de "O Setubalense" de 21 de Abril de 1941

Foto da mesa do Júri e dos premiados, podendo reconhecer-se

(alguns dos nomes foram deduzidos da notícia do jornal e lembremo-nos que se estava em pleno Estado Novo... dos outros premiados, além do seu grande Amigo, já falecido, Alberto Fialho Jr., meu Pai não se recorda quem era quem, mas os seus nomes constam da notícia d´ "O Setubalense").


1 - Cap. Correia Gonçalves, subdelegado da M.P. e Comandante da G.N.R..

2 - Representante do Comandante da L.P..

3 - Eng.º Carlos Manitto Torres, grande vulto Setubalense.

4 - Dr. Pires de Lima, Presidente da Câmara Municipal de Setúbal.

5 - Eng.º Armando Medeiros, Prof. de Matemática e Desenho de meu Pai no antigo Liceu Bocage.

...

12 - Dr. Alberto Fialho Jr., que depois se formou em Letras, grande amigo de meu Pai e grande Setubalense.

...

14 - Rui Nascimento, meu Pai.
...


Caso algum Setubalense (ou não!) se recorde destes Jogos Florais ou reconhecer mais alguém na foto, agradecemos que deixe um comentário!

quarta-feira, março 14, 2007

CANÇÃO DA AMIZADE

Amizade
Sempre,
a Amizade seja Lei,
sem qualquer decreto,
nem legislação.
Seja um sentir concreto,
de ideais repleto,
voz do coração.

Tenha
o querer entusiástico,
dominadôr, orgástico,
tal qual nova paixão.

Assim eu quero,
sinceramente espero,
que a Vida tenha um toque de ternura;
braços abrir possamos à Ventura,
Oh, Amizade,
és Amor sincero!


Canção da Amizade - Música


Letra e Música de Rui Nascimento


19 Maio/2002

domingo, fevereiro 25, 2007

Enquanto Houver Tempo

Soneto dedicado à M.ª João


MOTE

“Enquanto houver Tempo”


(dado pela Maria João)


SONETO


Tempo é “ser” muito misterioso,
guloso de todo o bom adjectivo,
inimigo feroz do negativo,
oscila entre feliz e horroroso.

Será nosso Futuro tenebroso?
Esperar-nos-á algo estimativo?
Quem dita o Bem e o Mal é generoso?
Havendo Mal proporciona lenitivo?

Desvendo agora a causa destes versos,
prestando homenagem, com todo o coração,
à professora amiga Maria João.

E agradecimentos, porque dela obtive
força para varrer temores adversos.
E ,“enquanto houver tempo”, gritarei: VIVE!


R.C. Nascimento
24 Fevereiro 2007

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Pedido de um Mote à D.ª Maria João


Agradecendo o seu beijo
de amizade sincera,
não quero que seja quimera
este meu simples desejo:
que em seu pensamento brote
o que a Musa sugerir,
palavra a constituir
um belo e ardente Mote!
(R.N. 07-02-21)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

TESTAMENTO DA VELHA




Este é o meu testamento
que eu fiz neste momento
em que digo adeus à vida.
Sentia a garra da Morte
a apertar-me o gasganete,
terrível, qual diabrete.

Mandei chamar o vigário,
o médico, o boticário,
uma benzedeira d´olhados;
no momento derradeiro
apareceu o cangalheiro
e quatro gatos-pingados.

Já traziam o caixão,
fiquei cheinha de horror
e soltei tremendo berro.
Nisto, oiço o Sacristão:
“Pregunta o Senhor Prior
a que horas é o enterro”.

Toda a gente em alta grita
quer ser primeiro atendida;
vem de lá o cangalheiro
com um metro de carpinteiro,
quer tirar-me a medida.
“Espere lá – diz o Doutor –
não queira ser metediço;
deixe a velhota auscultar
e depois de eu receitar
faça então o seu serviço.”

O boticário, exaltado,
´té arrepela os cabelos.
E a benzedeira d´olhados,
p´ra afugentar os maus fados,
vai espetando novelos...

Já farta de confusões,
pus essa gentinha a andar
e pensei com os meus botões:
p´ràs minhas disposições,
vou o notário chamar.

E fiz este testamento
de bens móveis e imóveis
e até de semoventes.
Se não agradar a todos,
Sempre é certo que p´los modos,
Vocês são muito exigentes.


Deixo à antiga Direcção
coisas de grande estadão:
ao Amílcar, um capacho,
para a falta de penacho.
E agora sem piada,
esta deixa que é sentida:
que torne a amar a Vida
e recobre a cor rosada.
E não se vá de longada,
é também desejo meu,
para sítio ignorado;
antes volte ao Ateneu,
onde tanto é estimado.

Ao Pacheco relojoeiro,
deixo um disco bem gravado
com um discurso inflamado
p´ra convencer o parceiro.
Poupará muito dinheiro
aproveitando o seu tempo,
porque os dias estão maus.
E no fim de toda a prosa
diz o disco em voz chorosa:
“o concerto é 20 paus.”

Também ao nosso Guilherme
da Circuncisão chamado,
eu vou fazer um legado
que é mesmo de pasmar:
aqui lhe deixo ficar
um triste encargo, afinal,
é ir ao meu funeral
com cara de sentimento.
Como não sou egoísta,
E como ele é um artista,
se for só, nada lamento,
´té dispenso a multidão,
basta-me o seu rabecão
para o acompanhamento.

Ó Marques, tu marcas sempre,
tu marcas em toda a parte,
destacas de toda a gente,
tens elegância e tens arte.
O que é que eu hei-de deixar-te
que te alegre o rir já franco?
Como tens bom coração,
olha, aí fica um tostão
para as falhas lá do Banco.

Machadinho, querido filho,
já não chego a ser avó,
já não canto o sol-e-dó,
já não trauteio o estribilho.
E na hora de morrer,
certo voto vou fazer,
que vai espantar os mirones:
como tens linhaça e lata,
deixarás os Telefones,
passarás a diplomata.

E deixo ao Henrique Dias,
uma pedra de amolar,
onde ele sem arrelias,
possa a tesoura afiar.
E também lhe quero legar
um tinteiro e três canetas
que ele poderá usar
no jornal que vai fundar,
“O Almocreve das Petas”.

Não esqueço a Orquestra Pontes,
tão cheia de cor e vida.
Eu, uma velha carcomida,
quando a ouvia tocar,
ainda sentia ganas
de ir pular e dançar.
E pelos votos que faço,
verás tu, amigo Pontes,
que eu não tenho mau génio;
que toques por vales e montes,
contratado pelo Eugénio.
E já alta madrugada,
depois de muito tocares,
paguem à rapaziada,
além da massa fixada,
umas horas suplementares.

E deixo ao José Faria,
Uma garganta de prata,
pois, como tem muita lata,
´inda ópera cantar podia.
E indo abrir loja nova,
para endireitar a vida
vou-lhe dar uma receita:
nada venda por medida,
mas sim tudo obra já feita.
E aos sócios em geral,
eu quero dar um conselho:
passem ali p´lo bufete
que há lá um vinho velho
que é de tirar o barrete.

Ao Nogueira vou dizer
aqui, sem que ninguém ouça:
casa depressa com a moça,
não esperes envelhecer.
Se ela. já farta de esperar,
te vem a dar com a janela,
não tornas a encontrar
uma pequena como ela.

E falando das senhoras,
só elogios posso ter
à sua elegância e graça...
o perfume que perpassa...
enfim, todos estão a ver.
Deixo-lhes um grande valor
que poderão pôr à prova:
isto é, um filtro d´amor
do mágico Barzabum.
Mostrem do que são capazes,
façam ralar os rapazes;
quando eu era também nova,
não me escapava nenhum.

E tu, ó Pereira da Silva,
cada vez estás mais menino,
e como nasceste em Março,
´inda hás-de ser Marcelino.
Visto a vida estar bicuda
vais apanhar a taluda;
deixo-te uma benzedura
para curares a mordedura
que te deram certos cujos,
e assim poderes arejar,
espanejar e lavar,
processos velhos e sujos.
À Orquestra dos Fininhos,
alguns sambas deixaria
se soubesse que ainda dançam
o Macedo e o Faria.
Mas como um agora é tropa
e o outro anda arredio,
levo os sambas para a cova
e não solto mais um pio.

E ao Agostinho Albino,
eu cá não deixo nem bóia,
pois já tem muito de seu,
que desde a guerra de Tróia,
ainda não apareceu
neste mundo uma outra Helena
que chegue à sua pequena.

Ao Arnaldo então eu deixo
um bom vaporizador
e uns maus cheiros muito finos
que é para ele seringar
determinados meninos
que se juntam lá na loja
a fazer sala de estar.

Fialho, vou-te deixar
em honra ao teu bigodinho,
uma incumbência taluda:
escreve para o “Pensa e Estuda”,
que aquilo está muito fraquinho.

Ao animador Candeias
vou contemplar de tal modo
que até se vai derreter...
deixo este espólio todo:
uns sapatos e umas meias
que eram do Fred Astaire.

Ao Soares, sempre animado,
bom amigo que se tem,
deixo trinta corridinhos
para ele dançar aos pulinhos,
ele é que sabe com quem.

Ao Arôcha quero deixar
uma coisa que lhe preste
nunca será codilhado
sempre que tenha arranjado
quatro trunfos de Ás e Best.

Esgotados os meus haveres,
ao findar o meu sofrer,
no momento derradeiro,
´inda tenho um gesto terno:
entrego a alma ao Inferno,
deixo a carcaça ao coveiro.

VELHA GAITEIRA

(R.C.NASCIMENTO)

(Lido pelo Autor no ATENEU SETUBALENSE, Baile de Mi-Carême, em 22 de Março 1941)

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

AS RUAS DA MINHA VIDA
(Dedicado ao Dia de S. Valentim)


As Ruas da Minha Vida

- FADO -

I

Foi na Travessa da Espera
que te esperei inutilmente;
senti que o desejo mente,
chamei à esperança, quimera.
A incerteza, essa fera,
hora após hora enfrentei,
se alguma vez desesperei,
foi na Travessa da Espera.

II

Mudei p'rà Rua da Esperança,
fiado numa crendice,
porque alguém um dia disse:
quem espera sempre alcança.
Acreditei na mudança,
sonhei uma nova vida
e em hora decidida,
mudei p'rà Rua da Esperança!

III

Velha Praça da Alegria,
disseste que o Amor voltava.
Quando entrei, acreditava,
quando saí... já não cria.
Foste apenas fantasia,
agora perdeste a fama,
quem te amava já não ama,
velha Praça da Alegria.

IV

No Beco do Fala-Só,
há um clube recatado,
num Carnaval mascarado,
lá fomos, de “Dominó”.
Não quero que só por dó,
penses um dia voltar,
antes quero a sós falar,
no Beco do Fala-Só.

V

Triste Rua da Saudade
transformaste esta amargura
numa vida de loucura,
andei louco p´la cidade.
A tua deslealdade
bradava à Terra e aos Céus,
e eu por fim te disse adeus,
triste Rua da Saudade.

VI

Moro na Rua da Emenda
mas tu nunca te emendaste,
dessa vida que levaste,
numa amarga, infeliz senda.
não é que eu me arrependa,
de ter gostado de ti;
mas emendei-me e esqueci:
moro na Rua da Emenda!


Letra e Música de Rui Nascimento
25-06-1997

Este poema ganhou o 2º Prémio dos Jogos Florais do SAMS de 2006.



"QUANDO ALGUÉM SE DISPÕE A ESCREVER, DEITA SEMPRE COISAS BONITAS CÁ PARA FORA"

(Frase de um dos membros do Júri)

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O TOLO SENTADO

Tolo Sentado
TOLO SENTADO

Medita, oh tolo que ostentas
poder, em trono altaneiro,
e, afinal, tu só te sentas
sobre o teu próprio traseiro


Num Mundo em dissolução,
cheio de notícias cruentas,
vê se não tenho razão,
condenando a ostentação;
Medita, oh tolo que ostentas.

Tu, em luta malfazeja
queres sempre ser o primeiro;
corrói-te a cruel inveja,
sem conseguires que se veja
poder, em trono altaneiro.

Queres clamar, pôr-te em pé,
dar ordens, mesmo violentas,
mas a triste verdade é
que perdeste esperança e fé
e, afinal, tu só te sentas.

Pára, pois, de ter em mente
só dar valor ao dinheiro.
Para a todos fazeres frente,
senta-te comodamente,
sobre o teu próprio traseiro.


R. NASCIMENTO 2004

quarta-feira, dezembro 27, 2006

quarta-feira, novembro 15, 2006

Cobras e Lagartos


(Balada concorrente ao Festival da Canção)


I

Nossa função principal
cá neste mundo é "ratar",
envenenar, dizer mal,
de tudo, tudo em geral,
p'rás más línguas contentar.

II

Se andam intrigas no ar
e os “bons amigos” fartos
de na “casaca” cortar,
vem o dito popular,
diz-se: “Cobras e Lagartos”!

Refrão

Por isso,
é que somos importantes,
tanto hoje
como dantes.

Não há
quem não aprecie as obras
dos lagartos
mais das cobras.

III

Da má-língua mais bravia,
a seita em tudo se mete;
do maldizer, à porfia,
vai um a tesoura afia
e outro amola o canivete.

IV

E da “casaca” desfeita,
quando já não há nem sobras,
zangam-se os membros da seita,
um… co´os lagartos se ajeita,
o outro prefere as cobras.


Refrão

Por isso,
é que somos importantes,
tanto hoje
como dantes.

Não há
quem não aprecie as obras
dos lagartos
mais das cobras.

R.N. - Primavera 96

sexta-feira, setembro 29, 2006

Soneto com 57 Substantivos

LAGE, SEIXO, CALHAU, BRITA, CASCALHO,
PENEDO, ROCHA, PEDRA, PEDREGULHO,
ESTERCO, CINZA, LIXO, LAMA, ENTULHO,
OSSADA, FERRO-VELHO, REBOTALHO.

BARROTE, TÁBUA, TORO, LENHA, GALHO,
CAVACOS, SERRADURA, PÓ, GORGULHO,
DISCÓRDIA, DESCONCERTO, SERRABULHO,
DESORDEM, GUERRA, LUTA, MOTIM, RALHO.

REMORSO, INQUIETAÇÃO, ANSIEDADE,
CRETINOS, INTRUJÕES, INCOMPETENTES,
DESTRÔÇO, MORTE, NADA, ETERNIDADE.

EIS COSMOS, ESTRÊLAS, MUNDOS, CONTINENTES,
PLANÍCIE, SERRA, MAR, CAMPO, CIDADE,
SISTEMAS, GERAÇÕES, COSTUMES, GENTES.



Setúbal, Junho de 1942

R.N.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Soneto dedicado a Bocage que hoje faz 241 Anos

… du BOCAGE

Provaste que ninguém ultrapassou
O Everest da tua Poesia.
E ninguém o tentou, quem tal faria ?
Só em ti toda a Arte rebrilhou!

Iniciaste o tempo em que soou
A lyra virtual que com mestria
Dedilhaste em concerto ?, sinfonia ?
E o teu coração mais palpitou!

Digo, torno a dizer, ouçam-me agora;
Inquebrantável grito se escutou,
Côro da vil, agónica, infeliz hora:

É o fim: "já Bocage não sou"…
Depois, Polymnia, luto, ou só, talvez…
Adeus ao Rei do "Sonetismo" Português.

* * *

Nota: POLYMNIA - musa da Poesia.

R.C.Nascimento